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A Mecânica e o Reducionismo

Se precisamos de profundidade interpretativa não existe modo de alcança-la através do exame da aparência.

Petrucio Chalegre

Newton morreu em 1727. Após seu trabalho nossas idéias do mundo não eram mais as mesmas. Imagine-se que ele propôs uma força que se transmitia sem nenhum meio visível através do espaço. Uma tal de gravidade. Ele mesmo duvidou da possibilidade desta ação sem meios, mas as fórmulas estavam lá.

Sem examinar as teorias do séc. XX, que vieram distorcer o próprio espaço, não percamos de vista a maravilha de sua obra. Porém o sucesso foi tão grande que imaginou-se reduzir o mundo a uma grande máquina. Até hoje há quem pense entender o pensamento humano examinando tomografias computadorizadas. Ora, a mecânica tem seus limites, todas as formas de exame o têm. Se você quiser entender uma pessoa, melhor conversar com ela.

Ou seja, se precisamos de profundidade interpretativa não existe modo de alcança-la através do exame da aparência. O problema é que, confrontados com os limites das diversas formas de ciência, existem numerosas pessoas que querem descartar de plano toda a ciência como inútil e falsa. Nada de tão novo, afinal por que Kant teria escrito “A Crítica da Razão Pura”?. Há pouco li o manifesto de uma organização propondo, nada mais nada menos, que o retorno ao tribalismo e ao xamanismo. E nossa imprensa e seus escreventes cometem erros tão sérios que deveriam nos fazer torcer de riso. A revista Veja publicou uma pesquisa européia que afirmava que os homens trocam de parceiras muito mais que as mulheres. Os homens teriam 15 parceiras em média durante a vida, as mulheres 7.

Façam as contas e quem entender com quem eles tem as relações que lhes permitem estes números, sem que os delas subam, me esclareça. Será que metade das relações masculinas são com profissionais? E elas não fazem parte da pesquisa? Bom material para quem acredita em invasores extraterrestres, deve ser com eles, se fosse assim a estatística daria certo. A única coisa que isto prova é que os homens maximizam e as mulheres escondem. Falta pensamento crítico, aos pesquisadores, divulgadores, e claro aos editores que publicam estes absurdos matemáticos. Newton deve dar voltas na sua campa de Westminster.

São então dois problemas. O primeiro de recusa e tentativa de retorno a um mítico passado maravilhoso que jamais existiu. O segundo falta aguda de funcionamento dos neurônios. Ou seja, ignorância e burrice associadas. Tanto na administração pública como na privada estes acontecimentos são presentes. Quando vemos imprevidência e aposta em chuvas vemos o pensamento mágico em ação.

Quando os raciocínios e as previsões são abandonados em favor de salvadores de ocasião, talentosos ou carismáticos, desastres se aproximarão. Nem a ciência tem resposta para tudo, e tampouco o descarte dela é caminho.

O país e as empresas tem que aprender a associar o espiritual e o científico, o talento e a exatidão, o melhor de ambos. Newton passou o resto de seus dias em busca espiritual, os manuais de matemática não se lembram disto.

29/06/2001

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